13 abril 2017

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Estrábicas medusas arrastam-se sinuosas
pela calefação das mitocôndrias.
Sussurros despertam a inércia dos rabiscos entrelaçados no vazio.
Escuro e hodierno sol de erupções bucólicas:
Meu corte em transversal da saudade amiúde.
Corações de metal estão pairando sobre o arrebol,
trazem nos calcanhares canções carnívoras que me recordam do dia gris
em que pairei nos teus braços esfumaçados da carvoaria.

Vêm brilhar do fundo do mar as abissais
para que como noiva loba eu te dispa em falsas aquarelas de spleen
e caia no teu enfarto primaveril de Guernica.
Como te dizer que eu te sublimo dos radares que nos multam,
mas não das trepadas que damos até os açaizeiros derrubarem diamantes?
Como te dizer que só me importará o fim, se tivermos relógios para garantir o exclusivismo colonial,
o plantio de novas flores do deserto
e poesias que atinjam a alma como se fossem um soco?

20 janeiro 2017

Imersio


Imersio I

Eu vim aqui pelo submergir...
Sem cordão umbilical,
propus-me a ser o homem da zona abissal,
porque o mundo já não me era ardil significante.
Irrefreável mar de idealizações.
Foi preciso resignar-se na desistência
para adentrar hipotética treva total.

Para desafiar o vínculo que enclausura a essência no corpo,
desvendei o labirinto da carne.
Deixei a vaidade do humano ver toda chaga.
Se o baile violento nada importa à essência,
importaria o sangue derramado?
Com as respostas navalhadas, abri a porta em mim.

É infinita a escadaria do abismo,
seus degraus não são vistos, todavia, sabemos que estão lá.
Líquidas escadas de remorsos
donde enxergamos nossos cadáveres.
Emoções padronizadas foram arrastadas por um rio caudaloso:
Era o prelúdio do mais novo rompimento.

Imersio II

Véus foram rasgados
onde noite e dia brincavam.
Conflitos anciãos esvoaçavam
como penas de pássaros abatidos em pleno voo.

Mais uma vez corri em direção à... Luz? À escuridão?
Já não sabia a verdadeira face do meu novo precipício.

Inundado de significação, envelhecido,
virei areia do tempo infinito,
a essência não ocupada da metafisica do belo.
Atrelado às linhas tecidas na sombra ou no clarão,
sempre encontrado, sempre perdido.

Fluido ou poeira cósmica tão significativa quanto a água para a purificação...

Painting: Quang Ho.

06 dezembro 2016

Rouge à lèvres


Ostracismo de faz de conta.
Impunidade aos pokémons mais difíceis de capturar.
Águias se banham em termais,
enquanto amantes sonham
em ouvir o velho e bom tecnobrega.
Vendo fotos de mencheviques,
eles assistem aos Hilotas dançando no fogo
e aos estrangeiros fuzilados antes de pular o muro.
Estamos sempre colidindo
e em débito com a dor alheia.
Espíritos nos transpassam a todo momento,
pois a fumaça de Humphrey Bogart cobriu o paraíso.
Nossos jornais foram comprados por harpias,
As quais estampam todos os dias notícias sobre o milagre.
Alguns anseiam pela antidemocracia
e comem canapés feitos com os olhos de quem ainda enxerga.
Eles amam o sangue.
O seu vazio requer a densidade do sangue.

E tudo sempre será cor de sangue para eles...

28 outubro 2016

Novas Propostas


Eu quero a complexidade da vida
Porque a simplicidade já me enoja
Palavra que pouco uso esta: enoja
Eu quero a aventura, o salto mortal
Novas propostas
Eu quero flores que não sejam belas
Rios com correntezas traiçoeiras
Tratados que vão fundir o amor e a guerra
Quero frio e calor abrupto
Quero roleta russa
Bebidas que não sei o nome e o efeito
Quero mergulhos no indizível
Idiomas que não conheço
E para terminar essa primeira lista

Mordidas além de beijos

20 outubro 2016

North Pole



Ártico coração of yours
Mesmo no verão seus ventos rasgam minha pele
Não há terra, inexiste sebe
Feito de mar congelado, no shore

There´s some water, deeper and deeper, but cold, very cold
Não há flora
Não há companhia
É compulsório passar temporadas na escuridão sem qualquer alegria

Queres que eu permaneça nestas condições e é só o que podes oferecer
Esta porra de amor desconfortável
Naturalmente eu prefiro dormir no frio banco do meu carro, without you,
contemplating all of this blue

And I´ve got the blues so bad…
Your heart´s my grave and my grave´s your bed
I´ve become blue, Ice cold…
Now I know that all that glitters is not gold
I´m where the flowers dance and wither alone

I really thought your heart was my sweet sweet home

09 abril 2016

AB OVO


Se a poesia tem alma,
também devo ter.
Ela vem sempre por primeiro, 
e desde antes d´eu nascer.
Passou pelo cordão e me tomou.
... Engana-se quem pensa que não é dominante esse sagrado feminino.
Ela me torna, em qualquer idade e circunstância,
ávido menino.

Embora seja eu um sujeito que se oculta do mundo,
na névoa e no odor do mar, subo às vezes,
e por pequenos interstícios, 
ela corporifica minhas incoerentes preces.

06 dezembro 2015

HÁ UM MAR DENTRE MEUS BRAÇOS


HÁ UM MAR DENTRE MEUS BRAÇOS

A verdade está aqui nos meus braços,
então pule e mergulhe.
Pule nesse Nosso oceano – eu costumo dividir meu infinito.
Você poderá ver para crer.
Nem toda água-viva deixa estragos tão grandes assim;
que eu não sei amar pela metade;
que prefiro queimar a me apagar aos poucos;
que prefiro exclamações a reticências!
Soçobrar é meu dom.
Minha boca é de mar,
meus gestos são de mar.
Eu sou aquele que gosta do mergulho
na zona abissal dos seus olhos,
onde ninguém ousa ir.
Aquele que mergulha na sua alma de leite e piche.
Sendo assim, não adianta correr,
porque eu sempre serei
a sua fita zebrada,
a repressão da sua pseudoanarquia,
a sua varinha de condão que enfeita estrelas-do-mar e cavalos-marinhos.
Aquele que sabe suportar o peso da distância das suas mãos,
todavia, invariavelmente, respeita, segue,
como sombra apaixonada por um único clarão.

29 agosto 2015

Ostensiva ostentação


Amor é luxo,
é ostentação,
embora seja marca invisível que queima a pele,
no seu semblante
é possível ver que já caiu nessa armadilha.
É despesa de suor, tempo e lágrimas,
que eu não sei se preciso

e se posso arcar com...

18 junho 2015

Não vingou


O nosso amor estava fadado a ser solo estéril
Então por que nos assustamos quando a árvore secou?
O amor é tão dúbio que a mesma rosa que te prova afeição

Poderia estar também no cemitério

03 abril 2015

Inutilidades

Corações que não batem
Braços que não abraçam
Passos que não têm destino
Músicas que não tocam
Sóis que não brilham
Ventos que não espalham pólen
Há um mar de inutilidades entre nós
Não há porvir
Não há esperança por servir

Há um mar de quinquilharias e um mundo que não desatou nossos nós

10 março 2015

Problemas no paraíso (Ou O enterramento precoce do amor)


Podemos asseverar, sem hesitação, que nenhum acontecimento é tão horrivelmente capaz de inspirar o supremo desespero do corpo e do espírito como ser enterrado vivo. A insuportável opressão dos pulmões, os vapores sufocantes da terra úmida, o contato nos ornamentos fúnebres, o rígido aperto das tábuas do caixão, o negror da noite absoluta, o silêncio como um mar que nos afoga, a invisível, porém sensível, presença do Verme Conquistador (...)

Edgar Allan Poe in O enterramento prematuro


Lembre-se do sol,
Lembre-se da chuva

Eles nunca irão tocar-me de novo esta noite

Cubra meus olhos de novo esta noite

Não me deixe ver a luz

The Birthday Massacre in Cover my eyes


Problemas no paraíso (Ou O enterramento precoce do amor)

Era verão,
manhã quente e clara.
Abriste as cortinas e trouxeste-me café na cama e girassóis.
Estar contigo era experimentar uma felicidade rara...

Chegou o inverno estraga-prazeres.
Todavia, nós nos aquecemos,
nós nos divertimos na chuva
e nós nos protegemos.

E quando o inverno chegou ao final,
vi-te com pás e correntes pela casa a arrastar.
Apenas senti um golpe na cabeça
e a-cor-dei den-tro de um cai-xão, qua-se sem con-se-guir res-pi...

Tiago Quingosta

29 janeiro 2015

Valsa das nuvens



Nada se compara ao nosso amor de auroras austrais
De gotas de chuvas musicais
De passarelas de nuvens de algodão
De flores raras balançando ao chão
De estradas de ouro e castelos de cristal
De estrelas bailarinas cantando em perpétuo natal
De valsas divertidas
De múltiplas luas estarrecidas
De bichos que mancham tudo de cores quando se sacodem
De supernovas que o espaço iluminem

Ninguém foi ao espaço sem espaçonaves até começarmos
Ninguém foi ao fundo do mar sem escafandro até começarmos

Nada se compara aos nossos passos harmônicos em valsas de Tchaikovsky
Às nossas carícias trocadas enquanto ninguém observa por conta do whisky
Nada se compara ao sol que não dói
Sobre a cúpula do quarto alumia um palácio de nuvem que todo dia se constrói

26 dezembro 2014

Cancro



O barco assobia charco,
mãos-pedra no limbo
das ríspidas calhas-homens,
calhordas.

06 novembro 2014

07 outubro 2014

Les Cordes

LES CORDES

Le poète sent
différemment
et ses pleurs sont de plomb.
Ses secrets sont sauvés dans son coeur,
mais quand la rose meurt,
la poésie coûte des points de suture.
La poésie a des cordes indépendantes et imaginaires.
Elles suivent des chemins lesquels même le poète méconnaît.

Tiago Quingosta