30 maio 2020
06 março 2020
Aluvião de Uirapurus
O Uirapuru me
apazigua
quando ouço o assobio
noturno da Rasga-mortalha.
Ele toma água
pura da bica
e liga o
desfibrilador.
Esclarece a
transição,
o purgatório
que precisamos trilhar.
Ensina ao
enxadrista uma nova estratégia.
E eu, eu não
deixo de ser passarinho no verão,
enquanto o
inverno é tudo que eles passarão,
antes de
voltar ao rez-de-chaussée
e àquele velho
mimetismo.
05 janeiro 2020
Reconvenção
Que ultraje o vento
lamber as roupas do varal,
lamber-me até o pau,
os ossos,
os dentes.
Acha que a viuvez afeiçoou-me ao frio que carrega.
Eu o fiz frio.
Fiz-me criador na própria redoma.
16 abril 2019
Bês
O poeta é bípede
Bissexto
Bígamo
Bipolar
Bissexual
Bruxo e
Boçal
Poesia: Tiago Quingosta
Desenho: Christian-Schloe
10 dezembro 2018
Casulo exposto
Fiz-me casulo exposto,
Sem obliterar um rio quilométrico e subterrâneo.
Fiz-me morada de corvos,
quando construía ninhos para anjos.
29 agosto 2018
Não tenho tratado
Não me tenho tratado como uma alma
Venho tratando-me como um corpo
Máquina complexa, mas, roupa, perecível
Não tenho escrito novos versos
Nem reciclado antigos
Sombras já se foram
Mas há muito nas entrelinhas a ser trazido para a luz do dia
Tenho amado
Quão grande dádiva
Todavia, preciso tratar-me como alma
Preciso ressignificar
Até meus mais familiares pleonasmos
25 maio 2018
Carved in stone
There´s a bridge and
there´s a star
There´s an
enlightening sky to glide
The bell tolls, It´s
time to depart
Once you learn how to
walk properly, you cut all the roots
You heal the soreness
You become deaf to the
hoots
All I know is this tortuous
course
To find what I am
craving for
To find the rest for
the core,
I must spin into my
own thorny storm
To win my battles I
always needed your hands
Your embrace while all
we´ve seen was dusk
But now I have to
explore those new lands
And strike my
undecided heart, once filled with lust
For the first time I lifted
my chin
To see what was right
in front of me
And to begin to change
all that has been
I didn´t need any love,
craved only for eternity
“You never would
believe
But a dead man has
flown
For the unknown
Without any tear
Behold, the slumber is
gone”
30 março 2018
26 março 2018
Heal
Todas as sombras que dão as mãos para formar a noite
Não podem tocar-me agora
Segui meu caminho de volta
Toda a fumaça que cegara meus olhos dispersou-se
O mundo era azul
E grande comoção causou-me
Todas as correntes que me prendiam oxidaram
E como areia, o medo foi embora
Carrascos desapareceram
Descobri no fim que não é tão simples a vida
E não se encontra o que se sonha
Sem paciência
Sem parcimônia
25 janeiro 2018
23 setembro 2017
Pedra de toque
Sonho com
a Cidade do Óbvio,
também
chamada de Óbvio Ululante;
com
quimeras humildes,
entrementes,
grandes,
em que
pairem, como auréolas,
alegrias
que não durem apenas átimos.
Sonho
com jornais menos violentos,
com
praças com mais flores,
menos
prédios, mais ventos
e
miríades de estrelas.
Meu
sonho é Óbvio,
na
minha visão estrita de mundo.
Só em Óbvio
posso encontrar -
chame
de bom senso
se
acreditar que tal coisa existe -
uma
certa cordialidade,
certa
paz.
Lá posso
asseverar que só o amor faz prosperar.
Óbvio
reverbera em mim
e ocupa
minhas células.
Todas
dançam em sua cadência.
Lá, os
sonhos saem de uma máquina
que não
compreendo bem o funcionamento
ou o
fundamento.
Quadro.: Robert McCall’s
Quadro.: Robert McCall’s
08 julho 2017
Mercúrio em libra
Vem através da guerra
Vem através do homem
Vem através da água
Através do espelho
Eis me aqui, refém
Um corpo estirado
Na pedreira
Um falo à mostra
Dando o seu recado
Impondo a sua maneira
Eu só rezo pela chuva
Qual seda
Cubra estes pastos
Eu rezo pela chuva
De pelica, a luva
É uma questão de estética
Uma questão de visão
Certezas pessoais
Para o mundo cão
Quem abrirá mão?
09 maio 2017
A vida é muita curta para eu te beijar com tanta parcimônia
A vida é muita curta para eu te beijar com tanta parcimônia
A vida é muito curta para eu não te fazer café todos os dias
A vida é muito curta para eu não te dar uma flor por dia
Essa vida é muita curta para não fazer de ti a maior e mais
bela poesia
13 abril 2017
350x776
Estrábicas medusas arrastam-se sinuosas
pela calefação das mitocôndrias.
Sussurros despertam a inércia dos rabiscos entrelaçados no
vazio.
Escuro e hodierno sol de erupções bucólicas:
Meu corte em transversal da saudade amiúde.
Corações de metal estão pairando sobre o arrebol,
trazem nos calcanhares canções carnívoras que me recordam do
dia gris
em que pairei nos teus braços esfumaçados da carvoaria.
Vêm brilhar do fundo do mar as abissais
para que como noiva loba eu te dispa em falsas aquarelas de
spleen
e caia no teu enfarto primaveril de Guernica.
Como te dizer que eu te sublimo dos radares que nos multam,
mas não das trepadas que damos até os açaizeiros derrubarem
diamantes?
Como te dizer que só me importará o fim, se tivermos relógios
para garantir o exclusivismo colonial,
o plantio de novas flores do deserto
e poesias que atinjam a alma como se fossem um soco?
07 março 2017
20 janeiro 2017
Imersio
Imersio I
Eu vim aqui pelo
submergir...
Sem cordão umbilical,
propus-me a ser o
homem da zona abissal,
porque o mundo já não
me era ardil significante.
Irrefreável mar de
idealizações.
Foi preciso
resignar-se na desistência
para adentrar
hipotética treva total.
Para desafiar o
vínculo que enclausura a essência no corpo,
desvendei o labirinto
da carne.
Deixei a vaidade do
humano ver toda chaga.
Se o baile violento
nada importa à essência,
importaria o sangue
derramado?
Com as respostas
navalhadas, abri a porta em mim.
É infinita a
escadaria do abismo,
seus degraus não são
vistos, todavia, sabemos que estão lá.
Líquidas escadas de
remorsos
donde enxergamos
nossos cadáveres.
Emoções padronizadas
foram arrastadas por um rio caudaloso:
Era o prelúdio do
mais novo rompimento.
Imersio II
Véus foram rasgados
onde noite e dia
brincavam.
Conflitos anciãos
esvoaçavam
como penas de
pássaros abatidos em pleno voo.
Mais uma vez corri em
direção à... Luz? À escuridão?
Já não sabia a
verdadeira face do meu novo precipício.
Inundado de
significação, envelhecido,
virei areia do tempo
infinito,
a essência não
ocupada da metafisica do belo.
Atrelado às linhas
tecidas na sombra ou no clarão,
sempre encontrado,
sempre perdido.
Fluido ou poeira cósmica tão
significativa quanto a água para a purificação...
Painting: Quang Ho.
Painting: Quang Ho.
06 dezembro 2016
Rouge à lèvres
Ostracismo de faz de conta.
Impunidade aos pokémons mais difíceis de capturar.
Águias se banham em termais,
enquanto amantes sonham
em ouvir o velho e bom tecnobrega.
Vendo fotos de mencheviques,
eles assistem aos Hilotas dançando no fogo
e aos estrangeiros fuzilados antes de pular o muro.
Estamos sempre colidindo
e em débito com a dor alheia.
Espíritos nos transpassam a todo momento,
pois a fumaça de Humphrey Bogart cobriu o paraíso.
Nossos jornais foram comprados por harpias,
As quais estampam todos os dias notícias sobre o
milagre.
Alguns anseiam pela antidemocracia
e comem canapés feitos com os olhos de quem ainda
enxerga.
Eles amam o sangue.
O seu vazio requer a densidade do sangue.
E tudo sempre será cor de sangue para eles...
28 outubro 2016
Novas Propostas
Eu quero a complexidade da vida
Porque a simplicidade já me enoja
Palavra que pouco uso esta: enoja
Eu quero a aventura, o salto mortal
Novas propostas
Eu quero flores que não sejam belas
Rios com correntezas traiçoeiras
Tratados que vão fundir o amor e a guerra
Quero frio e calor abrupto
Quero roleta russa
Bebidas que não sei o nome e o efeito
Quero mergulhos no indizível
Idiomas que não conheço
E para terminar essa primeira lista
Mordidas além de beijos
20 outubro 2016
North Pole
Ártico coração of yours
Mesmo no verão seus ventos rasgam minha pele
Não há terra, inexiste sebe
Feito de mar congelado, no shore
There´s some water, deeper and deeper, but cold, very cold
Não há flora
Não há companhia
É compulsório passar temporadas na escuridão sem qualquer alegria
Queres que eu permaneça nestas condições e é só o que podes oferecer
Esta porra de amor desconfortável
Naturalmente eu prefiro dormir no frio banco do meu carro, without you,
contemplating all of this blue
And I´ve got the blues so bad…
Your heart´s my grave and my grave´s your bed
I´ve become blue, Ice cold…
Now I know that all that glitters is not gold
I´m where the flowers dance and wither alone
I really thought your heart was my sweet sweet home
09 abril 2016
AB OVO
Se a poesia tem alma,
também devo ter.
Ela vem sempre por primeiro,
e desde antes d´eu nascer.
também devo ter.
Ela vem sempre por primeiro,
e desde antes d´eu nascer.
Passou pelo cordão e me tomou.
... Engana-se quem pensa que não é dominante esse sagrado feminino.
Ela me torna, em qualquer idade e circunstância,
ávido menino.
... Engana-se quem pensa que não é dominante esse sagrado feminino.
Ela me torna, em qualquer idade e circunstância,
ávido menino.
Embora seja eu um sujeito
que se oculta do mundo,
na névoa e no odor do mar, subo às vezes,
e por pequenos interstícios,
ela corporifica minhas incoerentes preces.
na névoa e no odor do mar, subo às vezes,
e por pequenos interstícios,
ela corporifica minhas incoerentes preces.
26 dezembro 2015
06 dezembro 2015
HÁ UM MAR DENTRE MEUS BRAÇOS
HÁ UM MAR DENTRE MEUS BRAÇOS
A verdade está aqui nos meus braços,
então pule e mergulhe.
Pule nesse Nosso oceano – eu costumo dividir meu infinito.
Você poderá ver para crer.
Nem toda água-viva deixa estragos tão grandes assim;
que eu não sei amar pela metade;
que prefiro queimar a me apagar aos poucos;
que prefiro exclamações a reticências!
Soçobrar é meu dom.
Minha boca é de mar,
meus gestos são de mar.
Eu sou aquele que gosta do mergulho
na zona abissal dos seus olhos,
onde ninguém ousa ir.
Aquele que mergulha na sua alma de leite e piche.
Sendo assim, não adianta correr,
porque eu sempre serei
a sua fita zebrada,
a repressão da sua pseudoanarquia,
a sua varinha de condão que enfeita estrelas-do-mar e cavalos-marinhos.
Aquele que sabe suportar o peso da distância das suas mãos,
todavia, invariavelmente, respeita, segue,
como sombra apaixonada por um único clarão.
29 agosto 2015
Ostensiva ostentação
Amor é luxo,
é ostentação,
embora seja marca invisível que queima a pele,
no seu semblante
é possível ver que já caiu nessa armadilha.
É despesa de suor, tempo e lágrimas,
que eu não sei se preciso
e se posso arcar com...
24 julho 2015
18 junho 2015
Não vingou
O nosso amor estava fadado a ser solo estéril
Então por que nos assustamos quando a árvore secou?
O amor é tão dúbio que a mesma rosa que te prova afeição
Poderia estar também no cemitério
03 abril 2015
Inutilidades
Corações que não batem
Braços que não abraçam
Passos que não têm destino
Músicas que não tocam
Sóis que não brilham
Ventos que não espalham pólen
Há um mar de inutilidades entre nós
Não há porvir
Não há esperança por servir
Há um mar de quinquilharias e um mundo que não desatou
nossos nós
10 março 2015
Problemas no paraíso (Ou O enterramento precoce do amor)
Podemos asseverar, sem hesitação, que nenhum
acontecimento é tão horrivelmente capaz de inspirar o supremo desespero do
corpo e do espírito como ser enterrado vivo. A insuportável opressão dos
pulmões, os vapores sufocantes da terra úmida, o contato nos ornamentos
fúnebres, o rígido aperto das tábuas do caixão, o negror da noite absoluta, o
silêncio como um mar que nos afoga, a invisível, porém sensível, presença do
Verme Conquistador (...)
Edgar Allan Poe in O enterramento prematuro
Lembre-se do sol,
Lembre-se da chuva
Eles nunca irão tocar-me de novo esta noite
Cubra meus olhos de novo esta noite
Não me deixe ver a luz
The Birthday Massacre in Cover my eyes
Problemas
no paraíso (Ou O enterramento precoce do amor)
Era
verão,
manhã
quente e clara.
Abriste
as cortinas e trouxeste-me café na cama e girassóis.
Estar
contigo era experimentar uma felicidade rara...
Chegou
o inverno estraga-prazeres.
Todavia,
nós nos aquecemos,
nós
nos divertimos na chuva
e
nós nos protegemos.
E quando
o inverno chegou ao final,
vi-te
com pás e correntes pela casa a arrastar.
Apenas
senti um golpe na cabeça
e a-cor-dei
den-tro de um cai-xão, qua-se sem con-se-guir res-pi...Tiago Quingosta
29 janeiro 2015
Valsa das nuvens
Nada se compara ao nosso amor de auroras austrais
De gotas de chuvas musicais
De passarelas de nuvens de algodão
De flores raras balançando ao chão
De estradas de ouro e castelos de cristal
De estrelas bailarinas cantando em perpétuo natal
De valsas divertidas
De múltiplas luas estarrecidas
De bichos que mancham tudo de cores quando se sacodem
De supernovas que o espaço iluminem
Ninguém foi ao espaço sem espaçonaves até começarmos
Ninguém foi ao fundo do mar sem escafandro até começarmos
Nada se compara aos nossos passos harmônicos em valsas de Tchaikovsky
Às nossas carícias trocadas enquanto ninguém observa por
conta do whisky
Nada se compara ao sol que não dói
Sobre a cúpula do quarto alumia um palácio de nuvem que todo
dia se constrói
26 dezembro 2014
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